Rivane Neuenschwander
12 de fevereiro de 2011
Voltando aos desenhos serigrafados por Rivane, há neste elenco pluralidade de inclinações, que revelam as mais diferentes disparidades intencionais e os mais diversos preparos. Há aí, por incrível que possa parecer, alguns desenhos que são, verdadeiramente, picassianos, como o que representa em notável síntese, apenas a mão e o falo e o do pássaro do beep beep; outros que foram feitos por alguém que tem boa noção de técnica, como o Homem de quepe e o que está a seu lado, sobre fundo arroxeado; há outros, cujo poder de síntese me deixou encantado, como o Carrinho de Supermercado sob fundo amarelo (apenas três traços e três bolas, das quais duas são as rodas e uma, triangulando com elas, é uma bomba de estopim aceso, já quase no momento de consumar um terrível atentado); outros, finalmente, são grosseiros tanto na execução, quanto no objetivo.
Na verdade, nesta obra, que se alinha entre as melhores realizações de Rivane, dada a grande quantidade de tendências aí estampadas, descobrimos, com o apoio da análise, uma verdadeira síntese da sociedade, onde todos, ora perfeitamente retratados, ora caricaturados, ora esculachados, nos encontramos.

Fig. 21 - Um dia como outro qualquer, 2008, instalação montada, primeiro na XXVIII Bienal de São Paulo, depois em outras Bienais.
Esta montagem – explica-nos a epígrafe – “Consiste de 24 relógios (flip clocks), cujos números foram substituídos por zeros. Os relógios assim modificados foram, originalmente, espalhados no pavilhão da Bienal de São Paulo, e também em locais relacionados à mostra, tais como restaurantes, hotéis e museus”. Depois foi levada a outros lugares, como ao New Museum, de Nova Iorque, e ao Mildred Lane Kemper Art Museum, de Saint Louis, tendo sido publicado um livro completo sobre a obra de Rivane Neuenschwander, já citado, e da instalação em foco foi usado o título para dar nome àquela publicação.
Um dia como outro qualquer? Ou seria O dia único? De repente, todos os relógios do mundo (que, na síntese da autora, estariam representados pelos 24 flip cloks) passam a marcar zero hora, pelo menos enquanto durasse a força misteriosa que tivesse provocado o fenômeno. A vida teria entrado numa bolha repetitiva de todos os acontecimentos contidos na demora iniciada naquele zero hora. Isto me faz lembrar de Groundhog Day (Dia da marmota), filme de 1993, que no Brasil teve o título de Feitiço do tempo.




