Miguel Gontijo – Armarinho São Miguel
11 de outubro de 2010
Reputo também colossal o quadro em homenagem a Federico Fellini, através do filme “La Strada” (“A estrada da vida”), com Giulietta Masina (Gelsomina, cujo retrato aparece na pintura), Anthony Quinn (Zampanò) e Richard Basehart (O Louco), feito em 1954 e exibido no mundo inteiro em 1956, logrando obter no ano seguinte o Oscar de melhor filme estrangeiro.
Sem dúvida, o quadro mais tocante, dentre os 20 que compõem a série, é “Pietà d’Avignon”, a que o artista deu o simples título de “Anônimo”. É o mais sintético de todos, porquanto, além da imitação de texto em colunas na parte inferior, sendo que só a central sobe até o corpo de Jesus, dos urubus de passo malandro que avançam no plano de frente e da mãe e filho morto em seus braços buscados em Guernica, nada mais há, nenhum símbolo, nenhuma referência a marcas de comércio, nada que pudesse distrair-nos a atenção do essencial, como seja o diálogo formal que se estabelece entre o conjunto compacto pintado pelo anônimo Mestre d’Avignon, a pintura mais comovente de toda a história, e a mulher e filho apenas esboçados trazidos da obra do pintor cubista, a mais chocante de quantas feitas no século XX.
Maria mantém sobre os joelhos o Salvador morto, disposto numa curva, confirmada pela disposição das quatro cabeças acima: das 3 mulheres e do sacerdote que encomendou a obra e nada tem a ver com a cena, mas fêz questão de nela ser incluído como prova de sua devoção. A cabeça de Jesus, destacada pela auréola radiante, encontra-se na divisão áurea da pintura original. As 5 figuras estão aí pintadas como se encontram no quadro antigo, com notável precisão técnica (e Miguel tem a ‘cara de páu’ de declarar que ainda não sabe pintar!…), ocupando toda a metade superior da obra, da barra das figuras às auréolas das santas. Logo abaixo delas, com muita sabedoria, num ponto absolutamente estratégico da composição, Miguel dispôs, pequenina, apenas esboçada em seu escôrço gráfico, a mulher de Guernica, tão patética em sua essencialidade, que traz no colo o filho morto, com a cabeça pendida para baixo, enquanto a sua se ergue para a face de Cristo, ou seja, para o céu, e emite com todas as forças do peito um grito lancinante de alarme, de resto abafado pelos relâmpagos e ribombos das bombas alemãs. Este grito, que expressa todo o desespero do mundo, contrasta com o sofrimento dolente e compassivo das três mulheres acima, que de tanto chorar já não tinham mais lágrimas. Entretanto, é a pequenina mulher picassiana que estabelece o clima dramático da obra e nos joga na cara todas as monstruosidades de que nós humanos somos capazes. Além disso, sua figura disposta no vértice de um triângulo bem sutil feito com a repetição em eco do filho morto à esquerda e dela mesma à direita, na faixa inferior, garante todo o equilíbrio virtual da composição, confirmado pelas tétricas figuras desses urubus, que repetem à frente as cores obumbradas das figuras da parte superior. O que há de restar para nós é uma silenciosa poesia confrangente, que perpassa por toda esta pintura.
Antes de avançar nas análises de exemplares das fases seguintes, ainda no contexto de “Armarinho”, mas sem maiores comentários, quero destacar mais três pinturas. “Deixai ir a ti as criancinhas”, com sutil ironia no título e amarga denúncia no conteúdo, com jovens presos por arames, sendo levados para o sacrifício; “As mesmas flores dos mesmos jardins”, onde o esfolado rembrandtiano e Baconiano é a própria humanidade sucumbindo na brutalidade das guerras; e “Romeiros”, onde homem enforcado e presunto se equivalem, pendidos por cordas sob um belo pálio à maneira de Dali, na presença corpórea do executivo, tudo num clima onírico, surrealista, lindo e trágico.
