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Miguel Gontijo – Armarinho São Miguel

11 de outubro de 2010

Romeiros, 2005, asm, 0,50 X 0,50 cm.

Romeiros, 2005, asm, 0,50 X 0,50 cm.

Miguel teve em Santo Antônio do Monte o Armarinho de sua infância, onde podia comprar, dentre um sem número de quinquilharias, os seus Gibis e balas Chita. Também eu tive o meu numa cidade aí do interior, não naquela onde nasci, mas em outra, onde passei parte da infância, mais exatamente, a cidade mineira de Piumhi. Era o Bazar Irmãos Cassini, onde sempre comprava uma caixinha de Cem-cem e onde, certa vez comprei uma flautinha preta, de uns 25 cm de comprimento, pouco mais grossa do que uma caneta Bic, com suas divisões sugeridas em dourado, na qual, após dezenas de tentativas, acabei aprendendo canhestramente a tocar o “Hino Nacional”, “Ò Jardinheira, por quê estás tão triste?”, “Barril de chope” e “Saudades de Matão”, entre outras músicas, das quais não me lembro.

Tanto quanto a Miguel em seu Armarinho, também no meu fascinava-me aquele amontoado de caixinhas, açulando-me a imaginação. Mas o que mais me fascinava ali eram os brocados e os bordados a prata das passanamarias, que ficavam em armários no fundo do Bazar. Fiz questão desta narrativa, para mostrar o quanto me identifico com as pinturas desta fase e o quanto posso compreendê-las, mesmo sabendo que elas jamais ficam presas no compartimento de uma loja, mas, via caixinhas misteriosas, dão ao pintor o impulso para vôos mais amplos por todos os bazares do mundo, arraigados no subconsciente do artista. Afinal, o mundo não é mesmo um imenso bazar, sempre repleto com as mesmas quinquilharias do São Miguel e dos Cassini?

Como seria bom se coubesse aqui falar dos vinte quadros que compõem a série! Na impossibilidade, tentemos apenas ligeiras incursões no contexto de alguns. De “O Ponto G” destaco, perdido entre lâmpadas, interruptores, latinha de fermento em pó e rendas, o seguinte poema de surpreendente amplitude e rara beleza, de Miguel:

“Quando a paisagem não basta mais,
quando a arte não basta mais, quando a masturbação não basta mais, o tédio fareja o suicídio e, saciado, chego ao humus, para, então, crer em Deus”.

Em “Hieros Gamus”, a figura de Pablo Picasso, dominando a composição, segura à sua frente um pano bem aberto. Não sei o que ele está tentando fazer: se tourear a roda de Duchamp ou, por se tratar de um sudário, onde está estampada a efígie de Cristo, fazer da roda um ventilador, para secar o tecido molhado com o suor e o sangue daquele que carragava a cruz. Entretando, a julgar pelas setas, a roda está imobilizada, pois a parte superior quer rodar para um lado, e a inferior, para o lado contrário – o que leva o pintor cubista a rir de seu esforço inútil. Tudo acontece na presença de desengonçada figura feminina, de tronco revirado com relação às pernas, sentada na cabeça de um touro fincada num bastão, preso numa carrocinha que transporta dentro de uma sacola de pano certamente um peru da Sadia. Enquanto isso, dois garotos, um corpo, outro alma, estabelecem no 1º plano uma disputa a estilingadas, por algo também inútil.

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