Miguel Gontijo – Manual de Instrução
25 de outubro de 2010
Eis aí uma desconcertante exposição de doze pinturas em acrílica sobre tela, todas pintadas em 2007 na medida de 0,90 X 0,90 cm. A mostra leva o título geral de “Manual de Instrução”, mas tece sob a desculpa de instruir os mais contundentes comentários sobre a natureza humana. Vejam-se, por exemplo, os quadros “Instrução educativa para transformar Bad Boy em Pivete”, “Instrução para fazer rodar a roda de Duchamp” e “Instruções descumpridas em Avignon” (portanto, ocas e loucas instruções inúteis), nas quais os símbolos, que perfazem a linguagem, são buscados, por força da vivência, nos episódios particulares de cada vivente, por conseguinte plurais, d’onde resulta serem estas pinturas retratos psicológicos, já não mais do pintor, mas de todos nós, em decorrência do que o artista, magnânimo, consente que sejamos co-partícipes dessas criações.
No quadro do bad boy um adolescente tem na parede diante de si 4 reproduções: gravura medieval representando cena de caçada; cópia de gravura da fase erótica de Picasso, na qual um pintor (já que segura uma paleta) contorcionista, faz sexo com uma bela mulher; um príncipe vai a cavalo visitar a amante, que o recebe nua, na varanda da casa; e, mais abaixo, história em quadrinhos de Mandrake e sua turma. Sobre o tampo da mesa, na qual o jovem está encostado, pintaínhos saem da casca e põem-se a andar por ali; seria alusão à sexualidade nascente do rapaz? Para completar a cena tão enigmática, uma batedeira de bolo (outra alusão?) voa surrealisticamente pelo espaço do quarto. Tudo se passa como que dentro de uma vitrine com um grande vidro na frente, no qual o pintor jogou com pincel tinta vermelha, batendo-o numa das mãos.
Em “Instrução para fazer rodar a roda de Duchamp” mais uma vez o artista, driblando a própria indicação do título, instiga-nos a procurar entre os símbolos usados um caminho próprio, no qual nossa luta em face do mundo e da vida é a tônica. À direita e em cima, um revólver aciona a corrida da leitura, apontando para a ilustração de uma cena urbana ladeada por 2 balões de diálogo vazios, um ligado à roda, outro ao cavalo; abaixo, a lâmpada de Picasso, a luz de que precisamos para boas idéias; no centro um monstro de 7 cabeças fala de nossos medos, e tanto, que o monstro parece mais goa’uld’s predispostos a todos os ataques; à direita, cartas de tarô, pois a vida é sempre inevitável jogo; logo abaixo um animal eqüino de bela compleição, marcando a passagem do tempo, salta sobre o vazio, tendo as patas trazeiras cortadas; no 1º plano, uma adolescente, com as pernas também cortadas, está sobre a mesa e carrega no colo uma garotinha, a qual representa a luta de todos nós, sempre dificultada; e entre ela e o cavalo, fixada também nesta mesa, a roda de Duchamp, que não pode rodar, presa como está pelas rédeas do animal; tudo isto sob a égide do poder econômico, representado pela nota de um dolar rasgada em três partes, distribuídas pela superfície da pintura. Afinal, a vida de cada um de nós, como disse o poeta, “é uma luta renhida”.
Para a conclusão desta parte, detenhamo-nos em “Instruções descumpridas em Avignon, outra referência a Picasso. Nosso olhar percorre o quadro, elemento por elemento, à procura de conotações e intenções, e depois ocorre-nos perguntar: – que instruções ali não foram cumpridas? Impossível saber e isso nem mesmo chega a ter alguma importância. Importante sim é o belo quadro que aí temos, o mais comunicativo de toda a série, lembrando-nos que a vida não é só luta e sofrimento, mas também alegria. Do friso de figurantes, as duas figuras da esquerda foram trazidas de “Les Demoiselles d’Avignon”, de Pabro Picasso, sendo que a segunda, que está com o estetoscópio ligado à figura central, é repetida na figura da direita. Essas figuras, no original, são exatamente as duas que se encontram no centro das quatro prostitutas, que são apresentadas ao marinheiro sentado à direita, para sua escolha. As demais figuras, abrigadas sob uma espécie de pálio feito com papel de parede, tendo na base 3 pimentões, estão todas sorridentes. Quando olhamos a parte de baixo, descobrimos que todos os figurantes com cara de gente não passam de meros galináceos. Bem no centro inferior, dominando a composição, está uma galinha, abrigando sob as penas seus pintinhos, ligada à composição pela diagonal que vai da taça azul inferior à sua gêmea sob as figuras picassianas. Taça? Dependendo de nossa vontade, pode também ser tanto o Santo Graal, quanto um pote de socar alho… Que disparate! Abaixo da galinha, um jornal anuncia que Batman deseja investir $1.000.000. Se o fêz, coitado! Perdeu seu rico dinheirinho. Ao lado da galinha, uma lata de fermento Royal, uma das 3 zonas em vermelho do quadro, que se procuram empaticamente, põe em destaque a cabeça branca da caveira de um pássaro, que triangula com a parte branca da taça da esquerda e com a coroa da figura acima, à direira.

