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Miguel Gontijo – Círculo Vicioso

26 de outubro de 2010

Leviatã, 2007, asm, 1,37 cm de diâmetro.

Leviatã, 2007, asm, 1,37 cm de diâmetro.

No primeiro semestre de 2008, Miguel Gontijo deu as últimas pinceladas em uma série de quadros que vinha pintando fazia anos, com muito cuidado e, principalmente, com muita consciência quanto à linguagem e aos resultados pretendidos. Trata-se da série de 13 pinturas intitulada “Círculo vicioso”, exposta em agosto daquele ano, pintadas em acrílica sobre madeira, em formato redondo, com 1,37 m de diâmetro cada. Dois meses depois fazia, na Pequena Galeria do Tetro da Cidade, sua última exposição até o momento, intitulada “I Modi”, composta por doze quadros em acrílica sobre tela, com 0,50 X 0,50 cm cada, e mais dois em técnica e formato diferentes, feitos nos intervalos e simultaneamente às últimas pinturas de “Círculo Vicioso”. Os tondos deste representam, em minha opinião, aquele encontro mágico de um artista com o essencial de sua busca: o domínio dos meios, a consciência da expressão e a certeza de uma linguagem que traduz, de maneira plena, o seu recado; para ser mais exato, o encontro de um artista com a maturidade. Vejamos algumas obras.

Na terra a origem. O vento da vida sopra. A cada criança um penico, a cabra-cega, o salto no escuro, o coelho groelandês. O santo, exaurido por sua santidade, pede ao chefe da gangue que lhe incendeie a auréola feita de palitos de fósforo, entre sopas rivais e à vigia de poderoso ofídio. O resto da gangue ameaça, enquanto o sinalizador extrai das sombras do anteparo a imitação da vida e sinaliza um Super-homem que tenta a salvação e nada consegue. Afinal, se o bode está morto, viva o bode(!), porque sua prole e a Mãe de Deus dormem no colo das virgens de Atenas, de Jerusalém, de Santo Antônio do Monte, sob a vista complascente de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro (ou de qualquer outra coisa), que sinaliza e sabe que jamais será atendida.

Talvez seja o quadro mais enigmático de Gontijo, mas certamente é, não obstante seu tamanho, uma verdadeira enciclopédia de símbolos, todos referentes à eterna luta do homem pelo quinhão de ar que lhe encha os pulmões a cada momento, luta que se desenrola na silenciosa fluidez do tempo, sob a dramática disputa maior pelo domínio terreno, que desde sempre se trava entre o Bem e o Mal. Mandrake (?) morreu à descarga de uma bomba flit, sob as vistas espantadas do Homem Morcego, e transparece às avessas, tal a passagem para o outro lado, no espelho que reflete um “Casal Arnolfini não tão convicto da união. Giovanna Cenami, ela mesma uma super-heroína, prepara-se para o salto no desconhecido: o vão do casamento. Logo abaixo eclode de um “urinoire”, como todos fétido, um feto todo troncho, sintomaticamente misturado a aves abatidas e dependuradas, como se usa nos mercados transalpinos, dentre os quais se insinua, de cabeça para baixo, um sinistro Hitler, que tenta, canhestramente, disfarçar a própria dissimulação. Mas roça com a cabeça a asa branca do Bem no friso dominado pela insistente presença de Emulsão de Scott e Fermento Royal, símbolos psicológicos de tudo quanto cresce (e endurece). Aliás, eis aí outro símbolo da luta do homem neste mundo caótico-erótico, reduzido ao binômio sexo-poder: de que outra coisa falariam as batalhas pintadas, como as de Piero della Francesca? Ergue a lança o Anjo Vingador e presto desfere no esforço o golpe certeiro no corpo do Mal, atacado por monstros ferozes e raivosos, verdadeiros goa’uld’s emigrados de uma ficção a outra, sojigando aos pés a terrível serpente, irmã do mal, com cara de ave de rapina germânica. Toda esta celeuma vem disposta para nossa leitura dentro de uma lógica sinalética a respeitar a forma redonda. Mas que moral tirar de tudo isto? Que toda essa luta se trava tanto au-dedans quanto au-dehors e, em matéria de permanência, vale mesmo é o tradicional “que se salva quem puder”.

Pano de fundo, 2007, asm, 1,37 cm de diâmetro.

Pano de fundo, 2007, asm, 1,37 cm de diâmetro.

Sob pacata cidade medieval marítima, dormida no passado, desenrolam-se os dramas urbanos hodiernos. As cenas independentes sequer se intercomunicam: um ser anatômico brota de um cavalo desventrado e este olha com espanto para o prodígio, as crinas multi-coloridas. Uma futebolista (seria a Marta?) tenta dizer algo à     Margarida reinterpretada e buscada num quadro de Velasques, que não lhe dá atenção, sequer a escuta, tendo no séquito Yoko e Lenon, mas todos parecem alheios uns aos outros. Ao lado, um indivíduo, falando ao celular, empurra um carrinho de super-mercado contendo Nossa Senhora com o Menino Jesus, tendo ao fundo um exótico sacerdote, que pôs na boca um pássaro vivo com bico de beija-flor e o mastiga. Um louco esbraveja, contido por enfermeiros. Tudo acontece sob a égide da sociedade de consumo – a mola do mundo, simbolizada por detalhes mercadológicos: Lança-perfume Rodo, Sabonete Gessy, Kellogg’s, Óleo Singer… e todo mundo arriscando a sorte no jogo da vida. Tarô. As figuras se dispõem numa curva aberta para a cidade medieval, destacando na passagem um friso com doze tomadas, onde um indivíduo procura desesperadamente encontrar uma posição mais cômoda num cubículo onde mal cabe seu corpo, em seu esforço infinitamente inútil. Desespero, desesperança, desalento. Onde tudo irá dar? A lugar nenhum. Não há saída.

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